Faculdade de Engenharia Naval propõe criação de selo contra escalpelamento

Um projeto da Faculdade de Engenharia Naval da Universidade Federal do Pará (UFPA) propõe a criação de um selo, na Capitania dos Portos, para oficializar que uma embarcação está livre de riscos de escalpelamento. O selo seria denominado “Avire”, Atestado de Vistoria de Isenção de Risco de Escalpamento. O projeto sugere, ainda, educar as comunidades ribeirinhas com o propósito de difundir informação e evitar o acidente, muito comum nos rios da Amazônia.

Prevenção - Para o coordenador do projeto, professor Kao Yung Ho, o mais importante é conscientizar os proprietários e os usuários de embarcações sobre essa situação, pois, segundo ele, o problema do esclapelamento nos rios da Amazônia é mais de gestão do que técnico. “O órgão responsável é a Capitania dos Portos, mas, para resolver a situação por completo, teria que haver uma grande campanha, o que é bem difícil, considerando o tamanho dos rios da região.”

Segundo Kao, o diferencial do projeto da Faculdade de Engenharia Naval é a proximidade que o aluno poderá ter com o ribeirinho, já que, muitos destes se sentem intimidados quando percebem que um oficial fardado está vindo em sua direção.  “Para os ribeirinhos, a impressão é a de que o representante da Capitania está se aproximando para aplicar alguma multa. Já os estudantes, por possuírem uma abordagem menos formal e por serem de uma instituição de ensino como a UFPA, podem dialogar mais de perto com os barqueiros.

“Obviamente, nossos alunos não serão suficientes para todo o Estado, mas o que nós pretendemos é criar um projeto de gestão, em que não se vai apenas ao barco dizer o que deve ser feito, e sim acompanhar a situação e formar um sistema de controle, pois, se hoje um barco está correto, mais tarde ele pode repassar a adequação para outro proprietário, que poderá modificar a embarcação”, explica Kao.

Gestão do projeto - Este direcionamento está sendo desenvolvido, a longo prazo. A ideia é que o próprio Centro Acadêmico de Engenharia Naval tome a frente desta iniciativa, com a orientação dos professores do curso. E com o passar do tempo, os estudantes irão treinar as próprias comunidades para serem agentes multiplicadores, as quais terão a autonomia de vistoriar e orientar os outros usuários de barco contra o escalpelamento, assim, eles não se tornariam dependentes dos estudantes.

De acordo com o professor, os alunos, além de estarem auxiliando as comunidades, poderão fazer um trabalho de coleta de dados. “Temos pouco material sobre as características das embarcações e os números de acidentes nos rios da região. Ainda somos pobres em dados”, diz o Kao Yung Ho. “Pesquisando na internet, podemos achar números muito incertos, as fontes, na maioria das vezes, não são citadas, e cada órgão possui uma estatística diferente”, afirma o coordenador.

Situação nos rios da Amazônia – O escalpelamento, geralmente, acontece quando mulheres de cabelos compridos têm os fios puxados pelo eixo do motor de embarcações que não têm nenhum tipo de proteção, que impeça o contato direto do motor com o passageiro. O acidente pode arrancar o couro cabeludo, as orelhas, parte da pele do rosto e, em casos mais graves, levar a óbito. Apesar de mais comum entre mulheres, há registros de homens escalpelados, nesses casos, a maioria sofre mutilações genitais.

É lei - As pessoas que sofrem esses acidentes são, em sua maioria, de baixa renda e, por isso, nem sempre têm informação ou procuram algum órgão competente. Todos têm direito de navegar em uma embarcação segura, e esse direito está garantido na Lei Federal nº 11.970, de 6 de julho de 2009, que torna obrigatória a instalação de proteções em torno de áreas móveis e do eixo do motor de embarcações. Quem descumprir a orientação pode ter o barco apreendido.

Kao Yung Ho destaca que existem muitas ONGs que trabalham no sentido de ajudar as pessoas que sofreram este tipo de acidente, “mas o nosso projeto visa evitar e não remediar o que já aconteceu”, ressalta. Segundo dados do Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional, 80% dos casos de escalpelamento no Brasil ocorrem nos rios da Amazônia, o que torna o desafio do projeto ainda mais importante.

Documentário - O escalpelamento já foi tema de documentário na UFPA. Os estudantes de Comunicação Social, Aline Souza Santos e Edson Luiz dos Anjos, escolheram falar sobre o assunto em seu Trabalho de Conclusão de Curso, e o vídeo está disponível na internet.

Texto: Yuri Coelho – Assessoria de Comunicação da UFPA
Fotos: Divulgação Projeto e Alexandre Moraes

Publicado em: 29.07.2012 12:00