Por Uriel Pinho
A
região amazônica é freqüentemente retratada na mídia como uma região rica,
inexplorada e onde os conflitos sociais pelo uso dos recursos naturais são
freqüentes. A cultura, quando retratada, parece querer se restringir a cultura
indígena, de maneira exótica e como que desvinculada dos modos de vida da
maioria não indígena dos cerca de 25 milhões de
habitantes da região.
É necessário entender a Amazônia
em sua complexidade natural e econômica, e também do ponto de vista cultural e
social das variadas populações que a compõem.
Em Belém, o Centro
de Memória da Amazônia, órgão da UFPA, surgiu com o intuito de promover a pesquisa sobre
aspectos pouco explorados do passado social e cultural principalmente da
Amazônia brasileira, e ainda aproximar essa produção científica das redes de
ensino fundamental e médio.
O Centro de Memória da Amazônia
O
processo de institucionalização de um pólo cultural que reunisse memória,
ensino e práticas artísticas teve início em 6 de fevereiro de 2007, período em
que a UFPA firmou um acordo com o Tribunal de Justiça do Estado do Pará
(TJE-PA),se responsabilizando pela guarda do “arquivo inativo” do TJE, ou seja,
cerca de 35 toneladas de documentos diversos, de natureza cível (registros de
casamento, nascimento, divórcio...) ou criminal (processos de roubo, homicídio,
estupro...), compreendendo desde o ano de 1796 até 1970 que tinham baixíssima
freqüência de uso e corriam o risco de se perder devido a falta de estrutura do
TJE para mantê-los.
Devido
a importância histórica dos documentos, a UFPA iniciou a estruturação do prédio
de sua antiga gráfica, no bairro do Reduto em Belém, para abrigar o arquivo.
Sob a coordenação do professor Otaviano Vieira da Faculdade de História da
UFPA, foi feita a organização de muitos documentos e mesmo com condições ainda
não ideais, o Centro de Memória da Amazônia recebeu cerca de 600 visitas de
pesquisadores do Brasil e de outros países, somente em 2009.
A reforma iniciada em outubro de
2009 inclui a climatização do espaço, construção de um auditório multiuso com
cerca de 50 lugares. Além de salas para a administração e pesquisa, e da
aquisição de 18 corredores de estantes móveis para as cerca de 3 mil caixas de
arquivos.
Segundo o professor Otaviano Vieira, apesar de
cumprir importante papel acadêmico, o principal objetivo do CMA é justamente se
firmar como mais um espaço cultural da cidade de Belém, atendendo à população
como um todo, por meio de atividades lúdicas e educativas.
Ensino e Pesquisa
Um
dos campos de atuação do CMA diz respeito à construção da história da
inquisição na Amazônia. Após parceria com o Arquivo Nacional da Torre do Tombo,
em Portugal, foi examinado o acervo de cerca de 10 mil processos da inquisição
portuguesa, e desses separados cerca de 103 referentes ao então Estado do
Grão-Pará e Maranhão (atualmente, quase todo o norte do Brasil, mais o Maranhão
e parte do Mato Grosso).
Este acervo agora está
digitalizado e disponível no site do CMA. E não interessa apenas a acadêmicos,
pois através da intolerância inquisitorial é possível revisitar a intolerância
nos dias atuais – incluindo fenômenos como o bullying.
Sociedade: foco principal
Ações
como essa revelam a importância da história e da memória como instrumentos a
favor do presente. Como dito pelo historiador Marc Bloch*, A história é uma
ciência dos homens no tempo e não simplesmente uma ciência do passado. Por trás
dos documentos deteriorados, artefatos antigos e peças em desuso, são os seres
humanos que a história quer enxergar. Esses
objetos são peças do quebra-cabeça que nos conta sobre as pessoas, a maneira
como elas viam o mundo e estavam inseridas nele.
História
pode ser análise e criticidade ao invés de simples narrativa. O que quer dizer
não se limitar ao culto de um passado repleto de heróis e grandes feitos. Ao
voltarmos nosso olhar para pessoas e acontecimentos até mesmo corriqueiros, há
muito acabados, revisitamos o próprio presente.
Pois em grande medida, o passado
é uma construção que obedece às demandas culturais, políticas e econômicas do
presente. Não faltam exemplos de fatos do passado que foram invisibilizados ou
trazidos de volta à tona de acordo com determinado contexto social. Nesse jogo
de lembrar pelo qual nos conduzem os historiadores, muitas vozes que foram
caladas ao longo do tempo, novamente são ouvidas.
* BLOCH, Marc. Apologia da
História: ou oficio de historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zarah Editor, 2001.